segunda-feira, janeiro 16, 2006

IDA E VOLTA


Quando estou cá dentro apetece-me ir para fora. Quando estou lá fora apetece-me ir para longe.
Aproveitando as férias do Natal e Fim de Ano resolvi matar saudades e viajar até à maior ex-colónia portuguesa, terra onde nasci e vivi a minha juventude. Foi a segunda vez que o fiz após a Independência. Na primeira, a emoção era tão grande que me levou a pensar mais com o coração do que com a cabeça. Aceitei facilmente o facto de encontrar uma acentuada degradação das vilas e cidades e deduzir que com o fim da guerra e o passar do tempo a prosperidade no futuro seria uma realidade. Desta vez os olhos viram mais. Infelizmente não gostaram do que viram apesar da paz e de um muito acentuado crescimento do comércio e dos bens de consumo de primeira necessidade. A capital angolana está mais limpa (exceptuando-se os subúrbios) no entanto a degradação da cidade mantém-se. A circulação automóvel é um verdadeiro caos. De carro nem para a frente nem para trás. Às vezes bastaria apenas um sinaleiro para facilitar as coisas mas as soluções mais simples são muito difíceis de concretizar. As estradas que ligam as cidades estão apenas mais livres de actos de banditagem mas tornaram-se autênticas picadas duras de percorrer. A conservação das urbes está certamente muito dependente da competência e da honestidade dos governadores locais e neste aspecto algumas regiões deixam muito a desejar. A sujidade e o amontoado de lixo é impressionante. Os bairros populares parecem o apocalipse e o cheiro é nauseabundo. O cada vez maior número de crianças que nasce em Angola convive e alimenta-se diariamente no meio das grandes lixeiras. A taxa de mortalidade é certamente impressionante. A educação e o estado dos serviços básicos de saúde primários da população situam-se praticamente no grau zero.
Mas não se vê apenas a pobreza. Observa-se o que a alimenta. A elite angolana pavoneia-se por todo lado em estilo foleiro e de variadas maneiras copiando o que de mau tem a sociedade ocidental e mostrando-se cada vez mais insensível à desgraça. Apesar da existência de um Parlamento com vários partidos representados e da promessa de umas eleições presidenciais num futuro próximo o regime democrático não se faz sentir minima e convenientemente. Tem-se a sensação de que o destino de quem levante a voz seja mais negro do que a sua própria pele dada a ausência de uma justiça eficiente e talvez conivente com o poder estabelecido. A comunidade internacional procura apenas concretizar também os seus avantajados negócios dinamizando e alimentando a corrupção interna alheando-se de tudo o resto. São raras as excepções resumindo-se as boas acções apenas a nichos com ligações sobretudo à igreja católica.
A Televisão do Estado e única a T.P.A. (Tortura do Povo Angolano), é obviamente o órgão oficial do regime. Cada Telejornal é um filme de actualidades onde são emitidas reportagens com as visitas diárias de ministros e governadores ao começo, ao durante e por fim à inauguração das obras quando estas por acaso chegam ao seu fim e que por sorte não ficaram pelo meio ou por falta de verbas, desleixo ou incompetência ou porque quem tinha a lucrar com a obra já tinha arrecadado o seu quinhão não havendo hipótese de “sacar” mais.
Mas claro que Angola não é unicamente uma desgraça. Não consigo perceber se por causa do seu povo, da sua imensidão, da sua beleza natural, da sua calma, do seu clima quente, húmido e convidativo a momentos inesquecíveis, da sua mistura de raças, da sua ligação à cultura portuguesa se por tudo isto junto, a vontade de a visitarmos e mesmo de lá trabalhar e vivermos é imensa. Apesar de tudo experimentamos ali uma sensação muito especial quando olhamos para tudo aquilo. Em Angola, ao contrário de Portugal e dadas as suas potencialidades perspectiva-se um futuro de bem estar e com soluções adequadas à melhor condição humana. Bastará para tal a vontade dos homens. Ou seja, os problemas têm solução. Prevê-se para Angola em 2006 um crescimento económico de 29%, um dos maiores senão o maior do mundo.
Três semanas dão minimamente para se perceber a realidade actual daquele país. Apesar de tudo vale sempre a pena visitá-lo. Como dizia o primeiro Presidente de Angola Agostinho Neto, num dos seus conhecidos poemas escritos durante o seu exílio forçado na luta pela independência, HAVEMOS DE VOLTAR.
Pois é, as férias acabaram e tive mesmo que regressar à CASA PORTUGUESA. Chegado ao aeroporto de Lisboa e depois de experimentar as primeiras sensações do frio de uma madrugada do mês de Janeiro lá apanhei um táxi que me levasse a casa. O motorista tinha o rádio sintonizado na TSF. Eram 7 da manhã. O jornalista de serviço anunciava com destaque que após um estudo feito por uma qualquer entidade cujo o nome não fixei, o Estado português iria a partir de 2015 sofrer consequências muito gravosas e de elevadíssimos custos graças à gestão danosa do ex-ministro das finanças Bagão Félix quando este decidiu, para fazer face ao défice do seu orçamento, transferir o fundo de pensões da Caixa Geral de Depósitos para a Caixa de Aposentações. Na semana passada veio o actual ministro das finanças dizer que se não forem tomadas medidas urgentes em 2015 Portugal estará falido para pagar reformas aos seus cidadãos. Apeteceu-me gritar para o taxista:
Amigo, volte para trás e leve-me de novo ao aeroporto. Naquele dia havia avião com destino a Luanda e deu-me logo uma vontade imensa de voltar à CASA ANGOLANA.

7 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Que massoquista!
Troca por troca nunca se deve ficar a perder. Sugiro a ilha de reunião ou um arquipélago à escolha da polinésia francesa. Chega?
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